Conto em português

A autora no meio de alguns dos participantes da Oficina de Tradução, março 2013, Universidade Federal de Campina Grande, Brasil

A autora no meio de participantes da Oficina de Tradução, março 2013, Universidade Federal de Campina Grande, Brasil. Ver seus nomes e outros créditos no final do texto.

Entre os sexos, os mundos e as culturas

Acabo de reler a correspondência de Julio, um argentino exilado em Paris. Há três anos deixei a Cidade Luz, esta metrópole de céu sombrio, para retornar a Montreal, lugar onde soltei meus vagidos inaugurais. Em sua primeira carta, Julio me contou una cosa interesante: na tarde da minha partida da capital francesa, ele refletia na plataforma do metrô; naquele mesmo instante em que ele se perguntava se teria a chance de me rever um dia, uma borboleta não muito bonita, mas enorme, pousou em seu indicador.

Julio saltou sobre esse símbolo de renascimento para tecer um casulo de esperança de onde sairia, sem dúvida, um lepidóptero. De fato, após receber sua sexta carta, eu o convidei, pelas instâncias do meu corpo, para passar as festas de fim de ano na América. Sempre sinto tanto frio nesse inverno canadense no qual uso o mínimo possível o aquecimento elétrico que me resseca as vias respiratórias. Na sua sétima carta, Julio me anunciava sua vinda.

Eu o conheci na Cidade Universitária Internacional de Paris. Chateada com a casa do Canadá, eu tinha sido “emprestada” à Argentina, conforme meu desejo e graças a um acordo de reciprocidade entre as várias casas da Cidade. Um compatriota de Borges tendo sido também beneficiado da hospitalidade da casa canadense, a dos estudantes argentinos se mostrava disposta a me acolher. Por falta de vaga no alojamento feminino, me cederam um quarto no masculino.

Desde minha chegada, vi de relance diversos espécimes masculinos circulando, ora em direção aos chuveiros, uma toalha de banho no ombro e um ar de tango nos lábios, ora em direção à cozinha, uma cafeteira italiana na mão. Da minha cama, surpreendi também baratas perambulando ao longo da divisória que disfarçava uma pia nanica e um bidê bem cômodo para colocar a louça suja. Meu quarto possuía seu Arco do Triunfo em miniatura. Ele se estendia no minúsculo pórtico dando em um pequeno toalete ao qual eu acessava empurrando duas portinholas à altura da cintura. Um chão de cimento sustentava os robustos móveis de madeira escura. O bulbo no teto mal iluminava as paredes com uma pintura verde sem graça e descascada, assim como as velhas cortinas vermelho-telha com motivos florais, emoldurando a janela torta.

Após alguns dias de convivência com os argentinos, ainda não tinha cruzado com aquele graças a quem se espalhava naquela noite, pelo corredor, um cheiro de boa comida caseira: Julio cozinhando uma omelete de batatas. Eu o vi na pequena cozinha compartilhada quando fui preparar, no vapor, uma grande alcachofra cujo tempo de degustação se estenderia por uns vinte minutos, meu prazer consistindo em morder a base carnuda de cada uma das pétalas da flor; essa aplicação silenciosa contrastava com a turbulência de Paris, ela mesma uma espécie de alcachofra de folhas eriçadas. Julio vigiava seu prato vesperal:

– Olá, ele me acolheu, ansioso, parando de mirar sua omelete espanhola.
– Oi.
– …Tudo bem?
– Tudo… e você? Acrescentei depois de um momento de hesitação no qual eu percebi nos seus bonitos olhos negros uma melancolia atraente que se opunha ao nariz vagamente arrebitado e um tanto alegre.
– … Mais ou menos.
– Para mais ou para menos? Me atrevi a perguntar, além das formalidades.
– Tem dias em que não se passa do mais ou menos.

Eu lhe prescrevi o conselho do poeta Rainer Maria Rilke, aquele de emprestar forças à tristeza. Impossível: a saudade dos seus arranhava o coração de Julio nesse sábado cinzento do outono parisiense. Nada o acalentava, nem mesmo as amizades adquiridas tardiamente ao longo dos dois anos de exílio nessa cidade que, a título de estrangeiro sul-americano, ele bebia até a borra, traído por um sotaque que o ejetava para fora do Hexágono.

Quanto a mim, me recuperava do último jantar em um restaurante da rua Mouffetard. Fisgada pelos ares da bossa nova no violão, tinha optado por Chez Jules, sem me deter à conotação libidinosa desse nome um pouco carnal. O serviço da vichyssoise[1] e das quenelles de peixe fluiu convenientemente por intermédio de um garçom, do qual eu não duvidava, visto a barriga e o bigode, ambos marcantes, que ele fosse o dono do lugar. Tinha chegado o queijo, uma generosa porção: um camembert inteiro. Com minha faca, eu retirava a casca, ocupada em não perder nada do creme quando, do balcão onde ele estava apoiado, sua pança na proa, o “dono” me interpelou:

– Ei, moça! Você deixou de lado o melhor! exclamou tomando como testemunhas os seus clientes.
– Ah… me disseram que a casca está cheia de antibióticos, precisei, para justificar um gesto que não queria ver interpretado como uma afronta à culinária francesa.
– Por isso mesmo! É por isso que é bom! Há 53 anos tenho comido antibióticos e olhem para mim! Eu nunca fico doente! E sempre comi as cascas!

Aproximou-se para pegar as que eu tinha deixado de lado no canto do prato e as engolia, lançando ao redor olhares soberbos.

– E mais, vou lhe dizer outra coisa, você tem um pé atrás com os homens, declarou ele em voz alta, com um tom categórico.
– Perdão?
– Vejo isso nos traços da sua face! Não pense que é porque você está jantando sozinha num sábado à noite! Faz muito tempo que observo as pessoas! Lido com comércio há trinta anos! Meu pai me legou seus conhecimentos em morfopsicologia! Leio nos rostos e se vê que você tem um pé atrás com os homens!
– Com que direito…
– … Os homens foram grosseiros com você! Tenho razão, ou não? Me intimou apontando o dedo. SIM ou NÃO?

“Por que está me questionando se, ao que parece, já sabe a resposta?” Indaguei em vez de mandá-lo para o inferno, ele que estava revestido em seu papel de revelador da alma feminina. Eu acreditava equivocadamente que uma polidez absoluta não traria mais água ao seu moinho. “Ah, vejam só! Então tenho razão!” lançou procurando entre os seus clientes uma cumplicidade que ele obteve do vizinho da mesa ao lado, até então um gentleman. “Ah! Ela respondeu! Então é verdade!” Comentou esse último evitando o olhar da sua companheira de grandes olhos à la Virginia Woolf. Interrompi essa tentativa de intimidação com a ideia de que Jules, que incidentemente se chamava Jacques, não desejava senão, depois da saída dos últimos clientes, andar no compasso dos meus passos, justo eu que tinha um pé atrás contra os Jules e os Jacques…

Rapidamente, paguei a conta e regressei para meu alojamento coletivo onde tentavam penetrar alguns argentinos à espreita, para descobrir as riquezas naturais do Canadá. A abordagem de Julio havia sido mais real que a do Jules: tínhamos nos conhecido havia poucos minutos quando ele me convidou para acompanhá-lo, na mesma noite, ao cinema do bairro 14º bairro. Se nossa conversa foi mais francamente esotérica que aquela a qual o dono havia me levado sem meu consentimento, as palavras trocadas refletiam, de um lado e do outro, uma ingenuidade juvenil e confusa que, pelo menos, incomodava só a si mesmo:

– Durante as luas cheias de maio, junho e agosto, a lua persiste sobre as águas como nunca e parece que as almas dos mortos trabalham em função das fases lunares para se libertarem dos destroços no fundo dos oceanos.
– É bem possível… Li que as nossas forças aumentam no curso da fase crescente da lua e que, na minguante, nossos problemas diminuem. Se ela cria as marés, eu nunca entendi porque se insiste em negar sua influência sobre nós os humanos. Afinal, somos feitos de 90% de água.
– Pois é… Dizem que antes de ler o futuro no seu espelho mágico, Pitágoras o apresentava à lua.
– Ele era adivinho? Sabe por que os videntes tem tanta dificuldade em se expressar sem cair no clichê? Pode se explicar pela astrologia: as faculdades mediúnicas são regidas por Peixes que se acham em oposição ao signo de Virgem que governa a escrita; eles estão no quadrante com Gêmeos, que domina a expressão verbal. Nos tempos antigos, todos os astrônomos eram também astrólogos, enquanto hoje…
– Não entendo nada de astrologia, mas creio que os planetas exercem uma influência sobre os seres humanos. Sabia que as hienas são hermafroditas e que elas copulam na lua cheia, se alternando entre macho e fêmea? Para nós, nos Pampas Argentinos, onde nasci, acredita-se em lobisomens.

Antes mesmo de dizer nossos nomes, ambos havíamos confessado estar preocupados com Deus e o impossível. Nós tentamos flutuar além das religiões, das seitas e das nações, surfando, no entanto, nas ondas do ocultismo. Ambos sabíamos que a ignorância é que é paranormal, não os fenômenos que vivenciamos.

Julio me contou que se desdobrava, muitas vezes contra a sua vontade, para se encontrar a vinte metros fora de seu corpo, perplexo. Isso nunca me aconteceu, porém, em Montreal, conheci um hipnólogo que ostentava sua faculdade de desdobramento voluntário. No dia seguinte ao que o recebi em casa para uma demonstração de hipnose muito bem sucedida em uma de minhas amigas, pude provar seu poder: com uma intensidade que durou até depois do despertar, senti primeiramente um peso sobre o meu corpo, depois uma pressão lúbrica no interior da minha coxa, enquanto palavras obscenas se imprimiam no meu espírito. As questões inquiridoras e a voz melosa do tipo que me telefonava no fim da manhã, me permitiram rastrear a origem do fenômeno.

– Você não tem o direito de violar assim a intimidade das pessoas! Eu o recriminei.
– Você é muito sensível, insinuava o hipnólogo depois de uma gargalhada obscena. Ponha um copo de água perto da sua cama antes de deitar, dessa maneira estarei sempre ao seu lado.

No amor e na guerra vale tudo… na mesma noite, delimitei meu território como um gato, colocando perto da cama um penico repleto de urina… “eu não vou te deixar assim” ouvi distintamente ao meu ouvido naquela noite. Cumpri esse ritual durante três noites seguidas e nunca mais recebi a visita etérea do intruso a quem tinha entreaberto a porta e acolhido em meu lar. “É um truque de bruxa”, comentou Julio. Tinha lido nos ensinamentos de Castaneda que uma velha feiticeira caçada por um agressor tinha se acocorado, urinado nas mãos e aspergido seu perseguidor; as gotas amarelas brilharam no ar se avermelhando e o indivíduo bateu em retirada.

Julio pretendia já ter sido vampirizado por moças que aspiravam sua força vital, mas tinha aprendido a se defender: quando ele julgava se achar em companhia de uma sanguessuga que ele não sabia como afastar, ele cruzava as pernas. Na casa da Argentina, o consideravam louco, porque ele já tinha ameaçado uma de suas compatriotas nesses termos: “Se você não parar de me encher, eu te fulmino e você cai por terra!”

Não tínhamos parado de prosear, falando disso e daquilo, desde que passamos sob os arcos da entrada principal da Cidade universitária. Julio tinha um passo rápido e braços intermináveis que o escoltavam quase até os joelhos. Prosseguimos no nosso tête-à-tête no meio da multidão que fazia fila para assistir a Amadeus. Como é o teu nome? Cochichou Julio no escuro enquanto Mozart, de quatro sobre a mesa, cutucava a empregada.

Andamos muito nas ruas a fim de prolongar o ato do encontro. “Não é normal que a gente conte tudo isso tão cedo. Não falo essas coisas para ninguém…” Na avenida Général-Leclerc, Julio, munido de uma barbicha à la Napoleão III e de um olhar aveludado já apoiado contra meu corpo, chegou até a me confessar “querer a felicidade”.

Ele alugava o quarto 16 e eu o 17. À cada noite, ele deitava então ao meu lado sobre uma cama de solteiro, igual à minha, da qual estava separada somente por uma parede. Eu tomava cuidado para evitá-lo, por uma espécie de romantismo tímido reticente à promiscuidade involuntária na cozinha ou no banheiro. Esperava o cair da noite para um segundo encontro. Mas o revi de dia, fatalmente. Ele me convidou para o café no seu quarto onde tagarelavam algumas amigas. Hesitei só por educação antes de aceitar, desejosa de romper o tédio de uma tarde de domingo.

Uma argentina deitada no leito de Julio massageava os ombros da amiga. Corri à janela para comparar nossas vistas respectivas sobre o jardim da Cidade Internacional e, sobretudo, para não ter que contemplar o espetáculo das que estavam se sentindo à vontade no quarto 16. Julio me estendeu um bol de café fumegante e depois serviu as argentinas que recolhiam as canecas rachadas. Falava com elas em espanhol enquanto me cobria com olhadelas interessadas. Depois da partida delas, sentados, bem eretos, em cadeiras em falso, nos

debulhamos sobre caprichos da vida intuitiva, normalmente clandestina. Assim, na véspera, quase adormecendo, tinha percebido um velho homem de perfil, uma vara de pescar na mão. Julio pensava que eu tinha visto um espírito silvestre, um duende. Afinal, a Cidade universitária de Paris tinha sido construída no lugar de uma antiga floresta… Compreensivo, ele se mostrava mesmo assim surpreendido pela quantidade de visões que o meu cinema particular passava na tela dos meus dias. Aproveitei para lhe sinalizar que o olho da consciência aberto já tinha “visto” a esfinge das areias, detentora do poder da imobilidade…

…Agachada na areia, hierática, a esfinge estava diante de mim, um ar terrivelmente exigente. “Estou esperando que os homens se transmutem em humanos”, me comunicou sem palavras. Ao contrário do monstro de Tebas, minha esfinge respondia às perguntas, mas me contentei com uma só: “Como sentir o amor verdadeiro, não cego?”. A resposta foi disparada, silenciosa: Sendo imóvel, irradiante, receptiva.

Eu não podia exibir a prova da existência da minha esfinge, mas Julio acreditava em mim. Para penetrar no mistério do processo de acesso seguro ao campo mental, cultivado pelo hemisfério direito do cérebro, é preciso quebrar o espelho, assim como minha natureza me impulsiona a fazer. Não sou hermética de propósito. O que digo é geralmente simples, mesmo que minha inteligência se satisfaça em considerar objetos não visíveis a olho nu. Visto o caráter imaterial dos elementos privilegiados pela minha consciência, a maioria dos viventes zomba da manifestação dos meus pensamentos. Parece-me que o fato de discorrer, por exemplo, sobre o mito da esfinge não cria problema aos mortais contanto que minhas afirmações traduzam o mínimo de clareza. Em contrapartida, a animação da minha bem-aventurada subjetividade desse arquétipo então desabrochado em palavras suscita, de um lado, o desprezo, às vezes uma indiferença nuançada de condescendência ou, no oposto, o entusiasmo simbiótico constrangedor dos adeptos da Nova Era.

Se neste fim de século, estrangulado entre o materialismo exacerbado e uma espiritualidade desviada pelo mercantilismo, experimento dos mitos e dos arquétipos, gosto igualmente de me deliciar de palmito e de pétalas de flor de Chagas. Sei, por vezes, gozar do meu intelecto, ainda que as abstrações organizadas me deixem em geral indiferente, uma teoria só valendo, na maioria das vezes, para seu autor. De outro modo, certas leis chamam a minha atenção, a lei dos números, a das formas, a do movimento e da influência magnética dos planetas. Se eu não fosse tão preguiçosa me debruçaria no tripé das leis gravitacional, eletromagnética e atômica. Basta-me, por enquanto, saber que o sol emite partículas de massa nula, eterna, e que estes estilhaços de eternidade giram três vezes em torno da terra em um segundo; viajantes, elas raptam os pensamentos longínquos. Eis porque somos clarividentes.

Penetra do festim divino, me contento em uma posição meio desconfortável sob a mesa do banquete, mascando os restos de um conhecimento secreto que me agrada revelar ao meu redor, esperando o repouso noturno. Então, deito a cabeça na pedra que, como fez para Jacó, sustenta esses sonhos nos quais subo a escada que me conduz ao oceano da transparência.

– Não é normal… nós falamos muito rápido, não acha? Temos que tomar cuidado.
– Com o quê? Indaguei, simulando inocência.
– Não sei, não sei… isso não me aconteceu muitas vezes.

Ele estudava artes plásticas e me mostrou seus desenhos inspirados na época pré-colombiana. Rãs, sobretudo, para chamar a chuva, os batráquios ditos protetores das colheitas. Eu o escutava. Tão linda, a chuva em espanhol! La lluvia. As palavras nascem da colisão entre o som e o silêncio. Um som, um asteroide; uma frase, uma galáxia. Teria dirigido a seguinte prece a Julio: fala, fala ainda como a chuva. Ele me propôs um restaurante em Montmartre, a “casa cor-de-rosa”, antigo ateliê do pintor Utrillo. “Às dezenove e trinta, eu te bato na porta”, ele me precisou em um francês vítima da afluência dos pronomes que pululam na sua língua materna.

Deixando a ditadura do seu país, Julio tinha resolvido não obedecer mais às vozes das almas perdidas. Em consequência, renunciava ao hábito compartilhado pelo seu irmão com o qual rondava os cemitérios dos pampas e escutava os chamados lancinantes de suicidas ou dos acidentados que vagavam perto do lugar do seu último “sono”. Pelo olfato, eles se deixavam guiar para achar o túmulo de onde a voz, geralmente feminina, se lamentava. As mortas exigiam flores em troca de serviços diversos. … Flores … flores… quero flores! Gemiam elas, traga-me flores! Julio cedia, depositava o presente exigido e fazia um voto sempre cumprido.

Ele receava ter firmado um pacto com o diabo. Pela eternidade. De fato, ele se sentia sempre atraído pelos campos do repouso eterno, os do Père-Lachaise e de Montparnasse, por exemplo, onde estava enterrado Sartre no túmulo de quem havia urinado uma personalidade francesa, me contou rindo, a fim de exibir sua audácia iconoclasta. Graças a um nariz ultrafino, Julio dizia farejar o odor dos cadáveres recém-enterrados. “Evidentemente, você sente, sobretudo, as moças.” Eu brincava a fim de me elevar acima da sua aparente morbidez. Desafiando os perfumes cadavéricos sexualmente identificados, ele se recusava, daí em diante, a frequentar os cemitérios parisienses, passando ao largo e prosseguindo nas avenidas. Mas ele se trancava e pintava demônios.

Estou no ateliê de pintura no subsolo. Depois da leitura do bilhete de Julio, deixado no escaninho da recepção da casa, penetrei no antro do artista que fazia questão de me apresentar o demônio de olhos verdes fosforescentes e de corpo vermelho-fogo finalizado naquele dia na tela. Lembro-me muito bem da nítida impressão que o seu diabo teve sobre mim. Horrivelmente vivo, ele feria quem, por um momento, lhe jogava os olhos. Virando-me para Julio a fim de expressar minha repulsão, notei pela primeira vez suas orelhas. Não tinha como não reparar as sobrancelhas que se juntavam no início do nariz, mas essas orelhas… Pontudas, sem circunvoluções… Quando acabaríamos por dormir juntos, estaria apta a listar outra das marcas visíveis que ele atribuía pelo sim, pelo não, ao diabo: uma marca de nascença circular em cima das nádegas no lugar de uma cauda imaginária. Sentada à indiana no chão frio do quarto, as cartas maiores do tarô na minha frente fariam eco à minha fantasmagoria: sairia a imperatriz que me representava e o diabo ao qual eu o associava.

Eu me prometi nunca mais procurar sua companhia e me esquivei para um jantar com amigos. Na minha volta tardia, me aguardava o rosto trágico de Julio que acabava de iniciar sua noite na recepção. Um tanto alegre, lhe sorri através da vidraça do balcão e dos vapores do Beaujolais novo, degustado na refeição. Altivo, me informou que “alguma coisa” me esperava lá em cima. Cheguei ao andar me apoiando no largo corrimão de madeira envernizada e percorri os trinta metros entre essa escada interior e meu quarto, escrutei o chão, não notei nada até abrir porta. Foi então que a entrevi na luz, depois de ter ligado o interruptor. A orquídea. Solitária imobilizada, fixada na porta com fita adesiva. “Está um pouco murcha agora, ela te esperou muito tempo.” Dito isto, Julio, que me tinha seguido, virou as costas para retomar suas funções na recepção.

Apesar de sua oferenda floral, tudo menos diabólica, eu fugia muito dele. Próximo à casa dos estudantes argentinos, o parque Montsouris constituía meu refúgio fora do quarto 17. Sustentava ali os pombos. A despeito de seus olhos vermelhos e de suas patas sujas por seus próprios excrementos, eles roçavam o pé dos anjos. Em troca de pão dormido, me transmitiam sua energia leve. Entre a matéria e o espírito: a asa. A asa do anjo: o braço do humano. Tão numerosas as asas que a quantidade se tornava uma qualidade. Cento e oito pássaros x 2 asas = 216 = 9 = o Conhecimento deslanchando a fase das transmutações. Os ratos celestes aterrissavam às vezes nos meus joelhos, arranhando minha pele nua, enquanto, de olho fechado, eu gozava do mínimo raio desse sol que, em Paris, tinha cara de avarento. Dezenas de aves mancavam aos meus pés formando ali uma coroa cinzenta e branca, enquanto outras pousavam nos meus braços estendidos.

Julio me encontrou apenas uma vez no parque. Eu observava a atividade reinante em volta do lago e, “os olhos esotéricos” como diria Julio, não desejaria nada mais. Poderia ter entrado em transe, mas, inútil: minha própria energia me entorpecia. Observado por um trio de patos-reais, um gato preto, traseiro pra cima, lambia a água do lago, depois levantou os olhos esmeralda ao céu. Pensei então no que tinha revelado a camareira, marroquina de quem todos os residentes se queixavam porque não limpava bem os banheiros e desvendava a todos o que se passava nos quartos. Fátima vinha de uma família de treze filhos cujo mais velho, “lindo como um príncipe”, tinha falecido havia cinco anos, de causa desconhecida; na véspera da sua morte, o tinham visto jogar pedras em um gato preto.

Enquanto eu medito nas impenetráveis vias divinas, por sua vez, os patos enfiam suas cabeças verdes na água balançando a bunda para cima. Uma senhora bem idosa passa depois, na minha frente, toda curvada. Segurada por uma mulher mais nova, sua filha, sem dúvida. A anciã me gratifica com um sorriso fabuloso. Seu acompanhante se aproxima e me sussurra ao ouvido: ela tem 96 anos! Em seguida, vejo Julio chegar perto, embranquecido pelo sol do meio-dia, os ombros baixos. Consternação: na luz, ele se parece com um zumbi. O crepúsculo lhe cai muito melhor que o clarão do dia. Largado no banco verde, Julio puxa conversa sobre o seu fascínio pelos macacos. Admira a habilidade deles ao se darem prazer, o requinte deles nas coisas do sexo. Se o amor, para o poeta, é mesmo o clima do destino, os sentidos são o clima da vida de Julio.

– Comigo você conhecerá o amor e o ódio, declara-me grandiloquente.
– Por que o ódio? Perguntei cética face à autenticidade de uma afeição carregada de tal sentimento, mesmo passageiro.
– A relação de força é fatal.

Estávamos naquele ponto condenados aos papéis determinados? Confessava querer me possuir e preferia ser bem colocado no inferno, do que mal, no céu. Eu optava pelo firmamento, cujo mais baixo escalão me convinha.

O homem me era um atraso necessário? Gozadora, a esfinge me recomendou outrora tolerar os machos, senão só me restaria mudar de planeta. Um pé atrás com o gênero masculino, como o presumia um Jules? Não propriamente. Eu batia o pé, sentia uma irritação intermitente a seu respeito. Sabia, no entanto, que cada rosto de homem representa um traço da grande Face, e que somos todos, de toda a eternidade, fragmentos de um Semblante supra-humano. Inspirava-me o desejo de ensinar o outro a ser divino em homenagem a esse Deus que não nos resistia, mas a quem resistimos. Julio, entretanto, me soprava noite a dentro: “Desperte em mim meus mais baixos instintos… quando você me olha com esses olhos… Você tem duas caras, uma cara na rua e uma cara na noite. Diabólica, você é un poco diabólica. Na casa, todo mundo acha seu olhar esquisito.” Ele tinha pavor porque cumprindo comigo o “indiferenciado” ao longo de nossa primeira noite juntos, faíscas dançaram diante do seu rosto… “Tenho medo de amar você, pareces vir do meu passado.” Julio desejava que lhe ensinasse a caçar seus fantasmas.

Febril, ele levava a mão aberta ao meu nariz depois de ter me acariciado:

– Eu lhe dou seu perfume, pega, toma, é seu cheiro… Quer saber se já renunciei? … Não me pergunta, eu não te pergunto.
– Então me fala o que você está se roendo para me dizer, o incitei depois de cinco minutos.
– Você quer saber se eu renunciei? Pode me perguntar… já renunciei. Está surpresa? Não renunciei por você, renunciei por mim.

Ele me anunciava assim ter posto fim à sua relação carnal com a filha do diretor da casa. Ele começou a deixar para mim presentes, modestos demais para serem charmosos, no escaninho do quarto 17. Alguns bombons ou nozes de avelã inseridos num envelope grampeado, às vezes acompanhados de bilhetes poéticos ou prosaicos, conforme seu estado de espírito:

Aquele cujos olhos viram a beleza
À morte desde então é predestinado.

Na tua alma equilibrista, não tem lugar
para a banalidade. Vi essa frase e pensei em mim (sic).

Perdi um garfa muito linda. Você pode dar uma olhada nas suas coisas?

Tive fiebre esta noite, ficarei na cama hoje.

Espere minha chamada, estou mais doente do qui ontem.

Depois de eu ter recebido seu diagnóstico, Julio me telefonava e, com a sua mais fraca voz, exigia minha presença no quarto. “Estou doente. Venha me ver, por favor.” À minha entrada na alcova, ele estava sentado na cama, vestido com uma segunda-pele rasgada, um xale em pelo de lhama sobre os ombros e, na lombar, um travesseiro. Um termômetro se exibia numa cadeira perto de um copo de água e de um frasco de medicamento. Desviei os olhos dessa encenação. Onde já se viu! “Se você precisar de uma enfermeira, pode usar os serviços da filha do diretor.” Esta batia muito na porta do Julio, um prato sempre transbordando na mão. Sua dedicação dava pena quando, com os cílios em leque, ela vigiava ao lado dele, durante as noites, na recepção; indiferente a tanto zelo, ele folheava revistas ou retratava de memória os habitantes dos Pampas, quando não atendia ao telefone ou não abria a porta a um argentino noctívago. Seguindo o meu conselho, Julio convocou a filha do diretor. Acorreram a mini-saia e o agasalho de lã angorá da pretendente, antecedida por um formidável pedaço de bolo com uma generosa cobertura.

No dia seguinte, Julio insistia, com advérbio em suporte, para que eu aparecesse novamente no quarto 16: “Estou muito doente.” A despeito dessa chantagem, ele me era simpático. Para agradá-lo, não precisava desfilar de vestido curtinho com um doce em equilíbrio numa bandeja. Ele me desentediava, apesar das suas afirmações, rasteiras benignas no meu caminho para a sabedoria acima da confusão dos sexos:

Gosto mesmo das mulheres calientonas.
ou
Adoro as mulheres.
ou
Fique calma (enquanto eu estava tranqüila).
ou ainda
Não posso fazer tudo o que você quer (enquanto eu não pedia nada).

Mas ele pronunciava Magnolia de uma maneira tão bela… Além do mais, era preciso oferecer ao meu corpo o que ele reclamava. Quando um homem e uma mulher celebram a intimidade física, a vida se entusiasma, almas se agregam perto deles na esperança de serem escolhidas. Durante o encontro dos corpos, além do milagre da concepção pode advir nos olhares o prodígio do Um.

Ele desenhava no seu quarto; enquanto isso, no meu, estudava a História da Arte, do Belo, esse plus além do útil, sabendo, no entanto, que a morte estabeleceu seu ninho nos museus e que o artista cria, mas que os seres epífitos explicam. Julio tinha orientado sua cama no mesmo sentido da minha depois que eu tinha revelado um dos segredos de longevidade dos Atlantes: dormir no eixo magnético norte-sul. Indicava minha presença aumentando o volume do aparelho de som para fazer ressoar Mozart, nosso compositor fetiche. Ele batia baixinho na madeira da parede que, ao mesmo tempo, nos separava e aproximava um do outro.

Continuamos nos dando nossos desertos povoados de assombrações. Os dos nossos amores. Depois, deixei Paris, onde gostava de transitar, mas não de viver.

Alguns meses depois, ao meu convite, Julio me recuperava em Montreal. Ele chegou ao aeroporto de Mirabel, o coração saltando do peito, para festejar o fim do ano na frieza. Um frio digno de janeiro com vento e nevasca. Meu pai lhe forneceu um casaco de inverno, ceroulas, uma touca e um par de luvas que ele perdeu quando corremos pela longa escada que conduzia ao cume do Monte Real. Tínhamos escalado a montanha em uma noite de lua cheia. As estrelas, dádivas da noite, onde se elaboram os núcleos atômicos, nós não as víamos, mas a lua opalina me dizia: Peça já que eu te dou. Queria a verdade da pedra, o amor da planta, a harmonia do animal, a paz do anjo e a felicidade do serafim. Uma pesada missão para os frágeis ombros de Julio.

Atirado às alegrias invernais, meu argentino, com um chapéu de castor, provou um passeio de trenó, puxado pelo meu irmão. Aproveitou também uma voltinha de carruagem com o Papai Noel na aldeia Saint-Coeur-de-Marie. Ele ficou gelado na charrete de inverno, saboreando, no entanto, o som dos guizos, enquanto eu contemplava o traseiro gordo do cavalo baio, saltando na brancura. Tirei fotos para a sua madre que, na sua aldeia sul-americana, sonhava com o Canadá, onde, por um decênio, teve uma correspondente desconhecida. Foi diferente daquele 31 de dezembro em que tínhamos vasculhado Paris, em busca de um telefone que funcionasse para nos comunicar com os parentes no estrangeiro, em que participei mais tarde, do Réveillon de argentinos, tão sombrios quanto a gigantesca mesa de mogno tingido, ao redor da qual circulava a saudade e um peru cozido demais com castanhas queimadas.

A satisfação dos meus sentidos não faz recuar as minhas visões. Estávamos deitados, trocando nossas solidões, quando vi um japonês no lugar do meu amante. Mais precisamente, ao rosto de Julio se sobrepunha o semblante de um samurai; à luz da vela, suas pupilas pareciam se dilatar e seus olhos ficavam ainda mais puxados sob o efeito da minha revelação. Enfrentou meu olhar veemente durante alguns segundos: “Não posso lhe acompanhar. Sua violência me amedronta”, admitiu cerrando a minha cabeça entre as suas mãos. Mas ele me tinha sussurrado em outra noite, no inverno:

– Você é muito doce. Soy mui feliz… você é uma mulher frutal… não tenho mais medo de você , mas só dos seus olhos que sempre têm algo de diabólico. Deles saem raios que vão buscar o outro.
– Pelo olhar o espírito faz amor com a matéria, tinha então resumido.

O yin-yang, com uma suave virulência que pulou na sua garganta, enquanto eu demonstrava a lei dos contrários exalando um perfume de lembrança nipônica. Julio desfrutou, uma última vez, dos suplícios do corpo a corpo, à morte comigo, pois ele ia embora naquele dia. No aeroporto, chorando, ele abraçou meu irmão. Dissemos adeus e hasta luego. Picasso acreditava que o passado e o futuro são apenas acidentes do presente.

Três dias depois de sua partida, certas expressões dele vinham à tona: “Sua pele alucinógena… Venha, vamos fazer o indiferenciado… Gosto da sua maneira de andar de pés descalços e certo movimento de cabeça quando você…”, tinha murmurado uma noite sem olhar para mim. Retomava posse de meu isolamento. Algum tempo depois, ouvi o silêncio pulsar na glacial lua nova de fevereiro. Este se manifestou enquanto eu descansava na noite do campo. Imaginei por um instante que se tratava do batimento do sangue nas minhas artérias, mas tive que me render à evidência: escutava realmente o silêncio vivo. Contração, expansão, contração, expansão, contração, expansão…

Quebro tudo, vou, espero a felicidade… tenha certeza que vou te levar o melhor de mim mesmo. Foi depois de ter percorrido a carta de Julio que, por inadvertência, abaixei com força a janela, esmagando um zangão. Não o tinha trucidado. Ele vacilava contra a vidraça como um astronauta em território lunar. Julio voltou na primavera para viver comigo. Nos confiamos, logo no assoalho do Mirabel, que tínhamos medo. Ele usava uma pequena cruz de prata no pescoço. Será que eu o amava? Naquela noite uma explosão se produziu no meio do meu cérebro, ou melhor, uma detonação. Talvez seja um anjo que aterrissou no meu crânio-aeroporto, conjecturei sorrindo. Julio me reencontrava fiel a mim mesma, ainda esotérica, além de aspirar à poesia.

Não bastante ébria de visões e de audições suspeitas, uma grande cruz branca me apareceu na noite seguinte enquanto estava deitada com a mão esquerda no braço do Julio. Minha orelha direita começou a zumbir e um nome a martelar-me o espírito. O de Laura Dupré.

– Conhece uma tal de Laura Dupré?
– Você já me perguntou isso ontem, me assegurou Julio meio dormindo, com uma voz arrastada.

Pronunciava indubitavelmente esse nome pela primeira vez. “Outra pessoa me perguntou, então.” Confusa, pousei a cabeça no travesseiro. Novo zumbido seguido de uma litania: “Quero flores, um buquê de flores, flores vermelhas, eu quero flores vermelhas!” De olhos fechados, vi uma moça perambulando no cemitério. Seus longos cabelos louros enquadravam um oval preto, uma ausência de rosto. Ignorava porque ela parecia tão infeliz e aflita. “Afaste-a! Afaste-a!… tente adormecer, conversaremos amanhã” me exortou Julio, sepulcral, sem se virar para mim.

Nenhuma janela estava aberta, mas uma corrente de ar frio acariciou minhas bochechas. Laura, sem dúvida, que me solicitava ininterruptamente. Então, em pensamento a consolei, alisei sua cabeleira, auréola reluzente. Inventei para ela uma luz de ouro tão fluida quanto as lágrimas na sua face invisível, até que captei nesta um brilho. “Agora me deixa dormir.” Não receava as assombrações deslumbradas sob minhas pálpebras, mas somente as que nos surpreendiam de olhos abertos. Graças a Deus os espíritos raramente me apareciam assim.

Na manhã seguinte, Julio, febril, me revelou que na Argentina, eram cravos vermelhos que ele oferecia às mortas… eu tinha visto, me explicou ele, uma cruz de cemitério argentino. “Esta Laura Dupré, talvez eu tenha conhecido na escola de Belas-Artes de La Plata…” Será que ele me escondia algo? Já tinha compactuado com Laura? Julio estava mudo como um túmulo, salvo que receava por mim e pretendia que eu deveria comprar flores. “Ela vai assediar você enquanto você não fizer o que ela pede.” Me opus a Laura, um não categórico, sobretudo porque, a Argentina fora do meu alcance, não teria sabido onde colocar o buquê. “Você vai ver…”, ele concluiu, com um ar inteligente.

Durante noites, Laura implorava por flores que eu teimava em não lhe oferendar. Durante dias, nada mais funcionava entre eu e Julio. Ele repetia que era porque eu ainda não tinha comprado. “Eu te avisei! Temo que seja tarde demais…”

Treze dias depois, em plena tarde, ele foi vítima, em minha ausência, de um ataque cardíaco fatal.

A mãe de Julio não desejou o repatriamento do corpo de seu filho, mas se precipitou à Montreal, conhecia enfim seu querido Canadá. Chorou aí, durante sete dias, seu filho bem-amado que foi enterrado na encosta do Monte Real.

Estou sozinha neste dia de Vênus, concebido pelo amor e o silêncio. Hoje, antes de reler as cartas de Julio, rondei contornando o lago Dourado, andei envolvida pelo ar fresco, respirei o outono evanescente. Subi num pinheiro. “Na verdade, toda experimentação da Unidade e da Santidade divinas depende da união entre o homem e a mulher, pois o significado último desse ato é sublime” enuncia o Rabino Na’hman. No rádio, a ária da condessa no terceiro ato das Bodas de Fígaro. Ajoelho-me em chamas bem no meio do salão e agradeço a Deus por me ter agraciado com um coração batendo. Esse Deus que, segundo Jó, colocou sinais nas palmas dos humanos a fim de que suas criaturas reconhecessem sua obra.

Sei que os búfalos esvanecem de amor de julho a setembro e que a íbis vermelha embranquece em cativeiro. Estou além ou aquém do amor humano? Conheço os filtros de amor. Mas, nunca os fabriquei para não perturbar o destino. Nunca reduzi a pó com meu sangue seco um coração de pombo branco, um fígado de pardal e uma matriz de andorinha com um rim de lebre. O amor impossível me mata devagar e seguramente. Nunca se começa algo numa sexta-feira, é bem sabido, mas se pode sonhar desmaiar de amor na relva macia. Ou então se toma chá, se come chocolate, se queima cartas de um antigo amor… Desejo alegrias, arearea, diria Gauguin. Os homens não me decifram, então os devoro. Não pertenço a ninguém.


[1] Sopa típica da culinária francesa, servida, tradicionalmente, fria.

***

Participantes da Oficina de Tradução conduzida por C.Varin, autora do conto, e realizada em língua portuguesa em março 2013, com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional do Ministério da Cultura do Brasil.

Albenise Mariana de Queiroz Sales, Alyere Silva Farias, Angelica Almeida de Araújo, Anne Ferreira Costa, Auricélio Soares Fernandes, Déborah Alves Miranda, Deise Luci Andrade, Edith Estelle Blanche Owono Elono, Guilherme Arruda do Egito, Jéssica Rodrigues Florêncio, José Leones Gomes Matias, José Veranildo Lopes da Costa Júnior, Joseilson Dantas dos Santos, Josilene Pinheiro-Mariz, Leandra de Farias Ribeiro, Maria Auxiliadora de Almeida Vieira Filha, Maria Rennally Soares da Silva, Matheus Franco Fragoso, Paulo Roberto Barbosa da Silva, Rosiane Maria Sores da Silva, Sara Jéssica Vanderlei Xavier, Selma da Silva Costa, Victor Lorran de Sousa Montenegro, Yamille Fragoso de Medeiros Nunes

Tradutoras de língua francesa

Alyere Silva Farias, Angelica Almeida de Araújo, Déborah Alves Miranda, Edith Estelle Blanche Owono Elono, Jéssica Rodrigues Florêncio, Josilene Pinheiro-Mariz, Maria Rennally Soares da Silva, Rosiane Xypas

Revisoras

Alyere Silva Farias e Josilene Pinheiro-Mariz

Organizadora da Oficina de Tradução

Sinara Branco, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino, da Unidade Acadêmica de Letras, da Universidade Federal de Campina Grande, no Estado da Paraíba, Brasil.

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7 réflexions sur “Conto em português

  1. Muito produtivo o encontro com a Claire Varin, espero que ela possa comparecer mais vezes no Brasil divulgando e seu excelente trabalho.

  2. Gostei e muito. Como sempre dou-te os meus parabéns. Escreves divinamente mas em português (do Brasil, claro). Continua a tua caminhada, dê-nos sempre esse prazer delicioso. Um abraço, Lay.

  3. Parabens, Claire! Amei seu conto em português. Muito criativo, leve e divertido. Mostra sua capacidade de transitar por lugares e línguas diferentes. Um grande abraço,

  4. Pingback: O diário de uma tradutora no Brasil: Claire Varin e o entusiasmo irradiante pela viagem entre as línguas | Centro Internacional do Livro

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