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Folha de SP Lembrando Otto
Artigo de C. Varin publicado na Folha de São Paulo, domingo 18 de dezembro de 2011

(Ler esse texto abaixo, depois de « Alguns comentários »)

Inspirada pelo Brasil e pela Clarice Lispector…

Fiquei com um fogo ardendo dentro de mim para contar a minha segunda vida ao Sul da Américas. Esta poderia se chamar : De Brasil e de brasas.

A minha trajetória do Quebec ao Brasil aconteceu graças a Clarice Lispector, escritora imensa, romancista e contista brasileira de origem judaica, cujos textos tem sido traduzidos em umas quinze línguas.

À Clarice L., paguei o meu tributo pela fulgurância que a sua escrita provocou em mim : publiquei dois livros sobre essa descoberta maior da literatura mundial do seculo vinte, Rencontres brésiliennes (1987), composto de entrevistas e documentos diversos, fotografias e manuscritos e Langues de feu (1990), ensaio, traduzido no Brasil (Línguas de Fogo, 2002).

Homenagei o Brasil por ter sido uma fonte inesgotável de inspiração, com dois romances, Profession : indien  (1996) e Clair-obscur à Rio (1998).

(Entrevistas dadas em português)

Línguas de Fogo

Ed. Limiar, São Paulo, 2002, 190 p.

(Palavra do editor) Um estudo profundo e apaixonado sobre a vida e obra de Clarice Lispector. Como muitos brasileiros, Claire se apaixonou pela obra da escritora brasileira; aprendeu português para poder ler os textos de Clarice na língua original e esteve no Brasil diversas vezes apreendendo esse estranho país dos trópicos.

O livro, resultado de uma tese nada academicista de doutorado para a Universidade de Montreal, analisa a obra de Clarice Lispector em sintonia com sua vida, sua formação em uma família judia e como esposa de embaixador.

Um livro indispensável para quem já conhece a obra de Clarice ou para aqueles que desejam se aventurar pelo mundo particular da maior escritora brasileira. Um livro para os apaixonados pela boa literatura.
Fonte : Editora Limiar.

Trecho

Em 9 de janeiro de 1983, eu desembarcava no Rio de Janeiro, sustentada pelo amor a seus textos, descobertos graças à tradução bendita por mim, apesar de seus avatares. Parti ao seu encontro a despeito de sua morte física ocorrida em 9 de dezembro de 1977. Ao ler A Paixão Segundo GH, em 1979, eu a havia encontrado. Essa paixão: uma perigosa chama que iria, eu saberia mais tarde, me fortificar.

Fiz a qualquer hora do dia tradução simultânea a fim de sobreviver em terra desconhecida. Correndo o perigo da esquizofrenia à beira dos mundos, entre a América do Sul e a América do Norte, sobrevivi. Oscilando entre a perda, provocada por ter deixado de lado um eu inicial, e a aquisição de uma nova individualidade, esse ser nascendo em uma outra língua, embalado por um ritmo diferente. Recém-nascido em crescimento no calor do verão do Rio, 40 graus na sombra. Eu estava na origem e lia na luz a obra de Clarice Lispector (sete romances, mais de setenta contos e textos curtos, dois livros de prosa, quatro histórias para crianças).

Alguns comentários

A autora, canadense, é, apesar da distância, uma das mais sensíveis leitoras de Clarice Lispector. Ela faz o que chama de « leitura telepática », misturando-se com Clarice. E desse modo escreveu um livro imperdível

José Castello, escritor e crítico literário, Veja, 25/06/ 2003

Escritora canadense revela os mistérios da obra de Clarice Lispector.

Ubiratan Brasil, O Estado de São Paulo, 09/03/ 2002

Claire Varin é, como Clarice Lispector, uma mulher de sensibilidade especial. Seus dois livros, construídos na forma de mosaicos e decorados por magnífico acervo fotográfico, têm de fato uma luminosidade extrema, atributo não muito comum nos ensaios oriundos do meio acadêmico.

José Castello, O Estado de São Paulo, 08/03/ 1996

A identificação entre Clarice e Claire se fez íntima, perfeita. O sútil registro da sensibilidade de Clarice, nervo exposto ao mundo, não escapa à sensitiva antena de Claire. […]

Como Clarice, Claire tem o dom das línguas. […]

Iluminada, Claire confraternizou-se com Clarice e tocou o cerne de sua originalidade. […]

Uma e outra, nas suas línguas de fogo, pregam a busca da verdade. […]

Se tudo é mágico, é preciso ver por fora e por dentro. Ver o de fora no permanente transe de quem não renuncia ao que não é aparente, ao invisível. Os textos de Clarice estão carregados dessa energia que é o sinal de sua peculiaridade. A força de sua originalidade, que Claire captou e, como Clarice, dela faz uma doação.

Otto Lara Resende, prefácio de Línguas de Fogo

Dir-se-ia que Claire Varin conviveu com Clarice e dela ouviu confidências e revelações, pois a segurança com que se move nos labirintos tem alguma coisa de íntimo. Embora encaminhe a conclusões que poderão provocar réplica e polêmica, a tese de Claire Varin é desde já ponto-de-referência obrigatório em todo estudo sério sobre nossa romancista. E muitos desses trabalhos futuros deverão partir de suas páginas.

José Geraldo Nogueira Moutinho, escritor

Jornal de Letras, Rio de Janeiro, 01/04/1987.

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Lembrando Otto Lara Resende – CLAIRE VARIN

Arquivo aberto

MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS

Lembrando Otto Lara Resende

Rio de Janeiro, 1983

Deixando para trás o inverno canadense, eu desembarcava no Rio num dia de janeiro de 1983, para pesquisas doutorais sobre a obra de Clarice Lispector. Pouco depois de minha chegada, fiz amizade com Otto Lara Resende, contatado por sugestão de Paulo Gurgel Valente, o filho da escritora.
« Uma flor de pessoa », como dizia dele mesmo, brincando, o querido Otto, que me pareceu de imediato dotado de tanta humanidade, de uma cultura extensa e, sobretudo, de uma fala inesgotável que, junto com o calor dos trópicos, deixava tonta a quebequense mas sem nunca a entediar…

Na saída passei minha máquina fotográfica ao simpático escritor Cyro dos Anjos, acadêmico eleito na sucessão de Manuel Bandeira, para ele tirar uma fotografia minha ao lado do meu « pai » brasileiro.

Ele sonhava visitar meu país, mas contava um fato real ou exagerado (nunca tive certeza se era uma piada): que, em sua juventude, na embaixada do Canadá (ou teria sido o consulado?), ele tinha vomitado diante dos convidados, em plena recepção, e que em consequência disso o governo canadense jamais lhe daria um visto…

Um dia ele me chamou a ir à Academia Brasileira de Letras. Em pé na tribuna, ao lado de Otto, fiquei espantada que, em um país tão rico de romancistas e contistas, a Academia não acolhesse uma parte da metade da humanidade.

A então única imortal do sexo feminino, Rachel de Queiroz, não estava presente naquela tarde. Os uniformizados sorriram diante de minha juventude e me convidaram para o chá ritual na sala dos lustres. Devorei os tira-gostos de palmito, me entupi de doces e beberiquei o melhor vinho do Porto com os medalhões que interrompiam a fala uns dos outros para me lançar tiradas ou me recitar versos de simbolistas franceses.

Ouvi religiosamente o presidente Austregésilo de Athayde me relatar seu encontro com Albert Einstein, e depois outro patriarca, com sobrancelhas grossas como dois bigodes sobre os olhos, me despejar a história política do Brasil. Passou pela minha cabeça que nenhum dos políticos modernos encarnava o modelo ideal, tal como foi sintetizado pelo poeta chileno Pablo Neruda, entrevistado por Clarice Lispector: o ser humano mais completo possível seria « político, poético. Físico ».

Em outro momento, Otto me levou à funerária do cemitério São João Batista com o objetivo declarado de me fazer conhecer Carlos Drummond de Andrade. Uma ocasião de ouro, já que a misantropia do poeta aumentava com a idade, me explicou Otto. O amigo de colégio de Drummond estava de boca aberta em seu féretro acolchoado. O defunto octogenário, dotado de uma dentição equina, exibia um sorriso amarelo, possivelmente sentindo-se privado da consideração devida à morte.

De fato, a imensidão de sua solidão estourava sob seu peito coberto de flores : os muitos visitantes falavam alto para reverter o silêncio do mistério do nascer, viver e morrer. « Ninguém olha para o defunto e todo o mundo lhe dá as costas », cochichei no ouvido de Otto. « Ele não podia imaginar que algum dia uma canadense desconhecida rezaria por ele ao pé de seu caixão. Vem que vou te apresentar a Drummond. »
Também ele de costas para seu companheiro morto, o poeta só falou comigo sobre seus problemas de saúde, fixando um ponto à sua frente, com os olhos sempre abaixados e deformados por lentes grossas incrustadas em uma moldura severa. Sua surdez parcial e a hipertrofia de sua próstata, como pedra no meio do caminho

Nessa época eu aspirava tornar-me escritora e também cronista, à moda de Drummond, de Otto, de Clarice e de muitos outros prosadores: para oferecer lições em forma de chistes, frases poéticas ou proféticas sugeridas pelas palavras, as coisas e os seres saídos da vida cotidiana. Mas não me tornei cronista e tenho escrito livros. O que não me impede de pensar que a crônica sabe sempre acolher a bem-aventurada subjetividade e as anedotas como as que lembrei agora, com prazer e muita saudade do Brasil.

TRADUÇÃO CLARA ALLAIN

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